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quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Natal e não Dezembro


Natal e não Dezembro

Entremos, apressados, friorentos,
Numa gruta, no bojo de um navio
Num presépio, num prédio, num presídio,
No prédio que amanhã for demolido...

Entremos inseguros, mas entremos,
Entremos e depressa, em qualquer sítio,
Porque esta noite chama-se Dezembro,
Porque sofremos, porque temos frio.

Entremos, dois a dois: somos duzentos,
Duzentos mil, doze milhões de nada,
Procuremos o rasto de uma casa,
A cave, a gruta, o sulco de uma nave...


Entremos, despojados, mas entremos,
De mãos dadas talvez o fogo nasça,
Talvez seja Natal e não Dezembro,
Talvez universal a consoada.


David Mourão-Ferreira

Natal de 1971

Natal de 1971





Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm?
Dos que não são cristãos?
Ou de quem traz às costas

As cinzas de milhões?
Natal de paz agora
Nesta terra de sangue?
Natal de liberdade
Num mundo de oprimidos?
Natal de uma justiça
Roubada sempre a todos?
Natal de ser-se igual
Em ser-se concebido,
Em de um ventre nascer-se, i
Em por amor sofrer-se,
Em de morte morrer-se
E de ser-se esquecido?
Natal de caridade,
Quando a fome ainda mata?
Natal de qual esperança
Num mundo todo de bombas?
Natal de honesta fé,
Com gente que é traição,
Vil ódio, mesquinhez,
E até Natal de amor?
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm,
Ou dos que olhando ao longe
Sonham de humana vida
Um mundo que não há?
Ou dos que torturam
E torturados são
Na crença de que os homens
Devem estender as mãos?


Jorge de Sena


Enquanto a chuva Escorrer




Enquanto a Chuva Escorrer

Enquanto a chuva
Escorrer da minha vidraça
E furar o telhado
Daquele farrapo de homem que além passa
Enquanto o pão
Não entrar com justiça
Lado a lado
Mão a mão
Nem jesus vem
Andar pelos caminhos onde outros vão
Um dia
Quando for Natal
(E já não for Dezembro)
E o mundo for o espaço
Onde cabe
Um só abraço
Então
Jesus virá
E será
À flor de tudo
O redentor
Universal
(Quando o homem quiser
Será Natal)

Manuel Sérgio




Eu queria ser Pai Natal

Eu queria ser Pai Natal
E ter um carro com renas
Para pousar nos telhados
Mesmo ao pé das antenas.

Descia com o meu saco
Ao longo da chaminé,
Carregado de brinquedos

E roupas, pé ante pé.

Em cada casa trocava
Um sonho por um presente.
Que profissão mais bonita
Fazer a gente contente
.

Luísa Ducla Soares
Poemas da mentira e da verdade